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sexta-feira, 12 de abril de 2013

O Aperto do Botão

As janelas bateram, bateram, bateram várias vezes durante a tempestade.
O sobrado marrom, de maderia, lembrava um castelo mal-assombrado
prestes a receber os fantasmas ou monstros de um filme de terror. Só as
janelas eram brancas, e brilhavam a cada relâmpago.
Malcom,o cachorrinho amarelo,assustado, escondido na oficina sem portas, o botão de rosa que quase beijava o chão a cada rajada de vento, e as duas
palmeiras  ao lado , todos trêmulos ,teriam desejado criar asas e sumir do caos. Eram onze da noite, a neblina juntava-se ao já sinistro cenário e a temperatura ía caindo.
As ruas do vilarejo estavam desertas.Poucos lampeões se desenhavam nas janelas das casas,as chamas ora dançavam  sob o vento que entrava pelas frestas, ora se agigantavam como uma bola de fogo que  quase engolia as cortinas enlouquecidas.
Teria sido  muito perigoso sair após o alerta da rádio local. Demitri já estava  de malas prontas para ir à cidade e alugar um quarto próximo à faculdade.Seria seu primeiro ano no curso de Direito. Sua mãe Maria já chorava pelas quatro horas de viagem que a separariam do filho. E os menores Yasmin,de dez anos, e Ivan, de oito,  eram muito apegados ao irmão.Afinal, ele quem assumira o papel do pai  morto na  guerra. Seria um difícil período de adaptação.
Os quatro conversavam numa mistura de saudade intempestiva e alegria pelo atraso do trem.
A tempestade então passou , mas deixou a neblina de rastro. A hora da partida havia chegado.Ouviram-se somente os sons das rodas e dos freios, como uma respiração forçada, interrompida por tosses metálicas do "gigante de ferro".Demitri ainda soluçava e  enxugava as lágrimas, quando entrou rapidamente no primeiro vagão, sem olhar para trás.Sua mãe e seus irmãos acenavam em silêncio, esticando-se para vê-lo uma última vez. Em vão. Sentou-se no banco ao lado do corredor. Abaixou a cabeça sobre os joelhos e voltou a chorar feito criança. Um  longo e seco estrondo abafou todos os outros sons. E uma imensa luz  de chamas lambeu e deglutiu tudo  em segundos.Seguiu-se um vento quente, devastador, que acabou por derrubar as árvores que teimaram em permanecer de pé. E tudo, absolutamente tudo, ficou em silêncio.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Desencarnando

Abracei-me ao vento,
fiquei imóvel
até chegar ao céu.

Marginal

Sou carne retorcida
de água embebida
e ossos duros
de roer.

Sou palavra podre
"Poeta, não se intrometa"
-disseram os monges-
com as  mãos trêmulas
nas divinas escrituras.

Sou o olhar contemplando vivas estrelas
"Louco, não há vivas estrelas a contemplar"
-disseram os cientistas.

Sou marginal do pensamento
"Poeta"- disseram os não-poetas
"Você não sabe pensar".

Sou o amor de faz-de-conta
"Louco"-disseram os não-amantes
"Desse jeito não se pode amar".

Sou a tristeza na multidão
a felicidade da árvore única
a dor e a alegria
da imensidão que seria
vivência de misturas...
"Chega!"-gritaram os zumbis-
"Você não sabe viver
 é só mais um poeta".


 

segunda-feira, 11 de março de 2013

Conclave

Conclave
com clavas
com chaves
conchavos
com fisco
confisco
compaixão
com paixão
compenetrados
com penetrados.


Contudo
com tudo
condecorados
com decorados
condescendentes
com descendentes
confusão
com fusão.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

IRA

Cravei meus caninos
em minha carne débil
prescindirei desse corpo
(veneno puro tornou-se...)
Mastigo pesadelos
eructando ora blasfêmias
ora apelos
soco minha boca
e quebro as presas de lobo
tento lamber a ferida
do corpo triste.
Tento um contato com a alma
mas onde está?
Não no coração
nem na mente.
Talvez nas narinas
a alma está nas narinas.
Respirarei profundamente.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Natureza Humana

Pirados
macacos
irados
ratos
apáticos
leões
famintos
formigas
amigas
pássaros
cantantes
vacas
dançantes
ovelhas
saltitantes
preguiça
omissa
borboletas
cativantes
golfinhos
fofinhos
antas
capivaras
papagaios
amados
gatos
araras
lontras
pompas
onças
tubarões
durões
baratas...
baratas?
não,
chega!
ecossistema
foda-se!